livros de colorir

 

agora que o modismo já empalidece e a onda de pseudo-críticos virou espuma, me sinto a vontade para falar.

acompanhei quieta os embates públicos sobre os livros de colorir. algumas vezes achei graça de como acadêmicos das áreas de letras e sociologia, óculos na ponta do nariz, sobrancelhas erguidas e paletós com oval de couro nos cotovelos, trataram do assunto como se fosse o acontecimento mais importante do mundo.

pense: livros de colorir versus academia, livros de colorir versus mercado literário, livros de colorir versus intelectualóides.

pelo amor das minhas letrinhas!, são só livros de colorir.

há alguns anos, antes dos sábios feicebuquianos decretarem que era um pecado, comprei um desses. e comprei também, mesma ocasião, caixinha com um milhão de lápis de cor. me diverti algumas noites pintando mandalas, escolhendo cores, fazendo contornos, combinações e tudo que me vinha à cabeça. era uma curtição, colocava um jazzinho básico e me entregava à distração. e em nada, em absolutamente nada, mudou minha vida, que não fosse no sentido de recreio bobo, frívolo e fugaz. muito perto de assistir um episódio de Tom e Jerry, coisa que também faço.

não sou pessoa com capacidade para as artes plásticas, gostaria muito, mas não sou. há alguma coisa errada em eu pintar cadernos? o ato me desvia dos meus compromissos intelectuais de leitura? tenho algum tipo de perda quando volto aos oito anos e testo minha capacidade motora? os limites dos desenhos migram para minha capacidade de criar, estudar, ler, produzir? obviamente a resposta é não para todas as alternativas. não tive perdas nem ganhos, só um esquecimento momentâneo da minha rotina.

quem não lê, quem não reflete, quem não estuda, não trabalha, não cria, não nada, nonada, provavelmente continuará o mesmo depois de gastar algum tempo pintando livros.

as livrarias se abarrotaram de tudo quanto é tema para colorir, e daí? eu e você que gostamos dos textos literários não somos impedidos de buscar o que nos agrada. e quem não curte ler não vai mudar de ideia se os balcões de anúncios estiverem abarrotados apenas com o melhor das letras.

sempre fico perplexa como as questões importantes de verdade sobre a educação no nosso país são cobertas por bobagens que não têm relevância alguma.

quer comentar? não se acanhe.

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