estátua: s.f. Obra de escultura em relevo pleno, que representa um ser animado. / Fig. Pessoa imóvel, sem ação.

dia desses contornando a pracinha, vi um maluco a conversar com o busto de Alfredo Andersen. disse-lhe algumas coisinhas, deu-lhe um tapinha camarada no ombro e foi-se embora.

achei graça e fiquei curiosa sobre o papo. que será que o cara confessou a Andersen? e como obteve resposta tão significativa que lhe despertou o gesto amigável? as vezes conversar com uma estátua pode ter grande valia… ela fica ali, imóvel, olhar plácido, silêncio absoluto, a ouvir nossas caraminholas sem julgamento ou questões que nos tiram do prumo. uma estátua pode ser uma grande amiga!, pensei eu.

ontem tive vontade de ir até lá. parei diante de toda a solidez de sua sabedoria e sem olhar em volta para saber quantos me observavam diante daquela maluquice, puxei fôlego. respirei fundo mais uma vez. e antes de começar a falar, ainda de novo, enchi o pulmão de ar como se fosse me jogar numa piscina. Andersen não ligou para o meu teatro porque acho que é isso mesmo que as estátuas fazem, desprezam os cheios de pose e continuam firmes em sua guarda do horizonte.

queria contar para Andersen sobre umas dificuldades que vivo nos dias atuais, relatar uma a uma minhas verdades e vontades, não ter medo de confessar os defeitos e impurezas da alma. queria mais, queria que Andersen pegasse seu pincel e desenhasse para mim os cenários futuros: se eu fosse para um lado, encontraria tal situação, para outro provocaria esta circunstância e, ao final, pintasse com todas as cores minha melhor decisão.

não consegui falar nada. fiquei ali, muda, diante daquela imensidão toda, a reconhecer que nada, ninguém, pode tratar das nossas próprias decisões. dei dois tapinhas no ombro da estátua e voltei pra casa. quieta e com todas as minhas dúvidas.

aandersen

escultura de Erbo Stenzel, na praça Alfredo Andersen

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