Título II, Capítulo VI, Artigo 171

e pensar que tudo que se refere ao serviço público rolou de maneira positiva e operante e o pepino se deu exatamente na iniciativa privada…

porque gosto de detalhes vou tratar de contar a saga.

despenquei na delegacia hoje cedo. (antes de continuar, não há como não falar de restos de móveis, pintura descascada, mesas bambas, cadeiras quebradas. eu sei, é uma delegacia e não a Casa Cor, mas o ambiente dá notícias sobre coisas de várias ordens que incluem palavras como segurança, descaso, investimento, falência, boa vontade etc.) eu, que me arvoro nas letras, virei noticiante barra vítima de um relato, que usava expressões como “cujo”, “o mesmo”, “referido”, “se encontra” e por aí vai. acho que se trabalhasse na polícia, me demoraria em boletins de ocorrência para tentar levar um pouco de poesia àquela prosa tão dura das perturbações de tudo que é fora da ordem, fora da lei, fora de propósito. e com isso atrasaria a vida de muita gente, claro.
pessoas atenciosas registraram minha queixa, orientaram meus passos e me falaram sobre outras providências. tudo rapidinho, burocrático e fácil.

como agora sou noticiante/vítima de estelionato, fui tratar de ligar para os lugares chiques, com prédios espelhados e confortáveis e grana para altas decorações.

primeira parada, Mastercard. três ligações, cada uma em média de 20 minutos a tratar com máquinas que falam como humanos e humanos que falam como máquinas. a cada nova transferência, ia espalhando o número do meu CPF com a sensação de que meu problema poderia aumentar a qualquer momento.
obviamente, como era de se esperar, não tive muito sucesso na empreitada. parece que no mundo Mastercard alguns serviços não tem preço, para todas as outras coisas o cartão resolve – acredite, no meio dessa esparrela tive que ficar ouvindo propaganda de benefícios em novos produtos que eu poderia adquirir digitando 3.

o lance na Visa é mais sofisticado. primeiro que a espera toca Mozart; não tive tempo para saber da formação, mas me pareceu um quinteto de sopros e piano, nem fiquei completamente irritada em passar alguns minutos naquele 0800. depois, a grande surpresa: do outro da linha um rapaz com voz bonita e aconchegante, a falar em inglês. como não poderia ocupar meus conhecimentos na língua e tascar a frase que sei, the book is on the table, pedi que falasse em português. cara! veio uma intérprete e ficamos os três, ligados por satélite, a falar e nos compreender de um jeito muito interessante. papo pra lá, papo pra cá, interculturas, tudo muito bonito e nada resolvido.

a última bandeira, Hipercard, vou tratar só na segunda-feira, porque afinal de contas, agora as contas e os problemas são meus e eles têm que esperar pelo final do feriadão.

nesse tempo em que tudo se resolve pelo computador, é necessário que eu faça uma peregrinação ao vivo por vários lugares. veja só, terei que abandonar, ainda que de forma momentânea, minha liberdade para me escravizar na difícil tarefa de provar que sou inocente.
dias de caça e de caçador pela frente e a certeza de aporrinhações…

quer comentar? não se acanhe.

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