histórias e flores

ando tão distraída nas últimas semanas que perdi a aflição da escrita. tudo e nada me envolvem de um jeito que acabo em silêncio.
invento histórias para as imagens que vejo da varanda, cada um dos vizinhos ou passantes tem um universo muito amplo a partir do meu olhar. cada um deve ter mesmo, mas as fantasias que me brotam vão além de suas realidades.
as ruas me deixam reconstruir a história do mundo e exercitar as ramificações paralelas para cada uma delas. é fácil para mim, por exemplo, passar pela Conciergerie e imaginar as particularidades de Maria Antonieta antes de sua morte. tenho uma sequência de gestos e pensamentos aterrorizantes, dignos, surpreendentes, tristes e firmes para os dias anteriores à sua decapitação.
qualquer pessoa que desfile em minha frente com sacolas de compras me mostra sua festa de natal e sua família, como as coisas acontecem em sua casa, o que comem, como comemoram.
são histórias sem fim que me assombram e ocupam o tempo todo.
numa noite dessas, andava por um mercado de flores e conversei de leve, porque não consigo muito mais que isso, com o dono de uma banca. ele tinha os olhos tão tristes, tão profundamente opacos, que não consegui inventar-lhe história alguma. fiquei por uns longos 20 minutos observando-o e quando já estava ficando deselegante aquela investigação silenciosa, não contive os impulsos e o questionei. com a ajuda do tradutor, contei-lhe das minhas impressões. ele me olhou bem fundo, acho que foi o olhar mais intenso que recebi na vida, e me respondeu, decerto confuso com minhas atrapalhações com a comunicação, em espanhol, que o natal o deixava assim. não perguntei os motivos porque achei que não cabia, muita gente que conheço é invadida por uma melancolia de final de ano. me convidou para um café, não pude aceitar porque o relógio me avisava do horário de voltar pra casa. agora, já distante daquela noite, sua história ainda é para mim uma página em branco, no entanto, consigo saber direitinho o que passa com sua assistente. no convite para o café pude ver em seus olhos dor e tristeza, quase um desespero. torço para que esses dois olhares se encontrem… na minha cabeça isso já aconteceu.

quer comentar? não se acanhe.

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