louça de domingo

acho que há qualquer coisa de sublime na louça de domingo. diferente daquela empilhação de pratos e copos e talheres e travessas e panelas e xícaras dos vulgares e corriqueiros dias.

no domingo a louça é mais elegante, tranquila, surpreendente. é a mesma dos outros seis da semana, mas o humor muda e ela representa mais.

se meus pratos falassem, de segunda à sábado, diriam coisas como pressa, macarrão, rapidez, suco, compromisso, escola, freezer, micro ondas, sal.
aos domingos eles cantariam e em cada música usariam palavras como donaire, alecrim, família, vinho, calmaria, conversas, risadas, manjericão.

lavar a louça de domingo é uma comunhão com o belo. é como se a água quente que bate nas porcelanas benzesse todas as conversas que figuraram à mesa e renovasse para sempre suas possibilidades.
até a espuma do detergente é diferente: nuvens em um céu muito próximo e cheio de anil de meio-dia e estrelas de meia-noite.

no domingo, a louça se espicha em ordem no escorredor, ela considera uma parada estética para que as gotas escorram serenas e em paz até que tudo fique pronto para voltar pro armário, pro descanso. os pratos grandes se arrumam, as taças e copos se encolhem, os talheres se subtraem nos espaços. tudo parece flexível e com disposição para obedecer a um processo de beleza e arrumação.

o banho da louça de domingo tem os segredos do meu sobrenome. traz os ensinamentos de muito antes de eu estar aqui. é a base da cozinha, da mesa, da culinária. é a revelação do relacionamento entre a copa e o fogão.

lavar a louça de domingo é saber de onde eu venho e o que me cerca, o que faço e como lido com a realidade, pra onde vou e o que carrego comigo.

há muita filosofia na louça de domingo.

quer comentar? não se acanhe.

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