Marathon de Paris

gosto de imaginar as pessoas. suas famílias, hábitos, comportamento, problemas, alegrias, soluções.

uma sacola no metrô é pano pra muita manga. a conversa na mesa ao lado, as compras no carrinho do mercado, posição na fila do banco, número de papéis dentro da carteira. tudo é primeira pista para um vasto rio de fantasias que navego muda e em segredo sobre a vida alheia.

hoje, a espiar a Maratona de Paris, vi muitos tipos humanos correndo na minha frente. em cada passo um pouco de muito, um traço espetacular do que é particular e comum, do que é muito próprio e de todos nós. bonito.

atletas profissionais têm o olhar do guerreiro, o queixo pra cima, a expressão concentrada. vi um que ensaiou sorriso pelos aplausos que recebeu no caminho – é como se deixasse o olimpo por uns segundos e pisasse, humano, na terra.

atletas amadores são feitos de paixão, prazer e vontade de aproximação de outra categoria. não perdem tempo com pormenores, se esforçam para não sair do labirinto da competição. vi um que atrasou o seu percurso em segundos preciosos para dar um abraço num amigo que o aplaudia na corda.

atletas de final de semana são perigosíssimos, estão a um passo entre a saúde e o enfarte, o tênis e a cerveja, a corrida e o cinema. vi um que largou a maratona, atravessou a rua como quem vai para o trabalho e jogou o corpo suado num café, já com o dedo em riste a chamar o garçom.

os não-atletas são pura alegria. se fantasiam, brincam, mandam mensagens bem humoradas, empurram os filhos nos carrinhos de bebê ou os amigos na cadeira de rodas. passam com entusiasmo contagiante a contar sobre diversão. vi tantos que nem sei em quem pensar.

a Marathon de Paris é, como acho que são todas as outras, uma experiência em grau máximo para quem gosta da observação do humano.
e agora estou a especular na ficção dos pensamentos sobre a vida de cada um dos que passaram por mim e despertaram atenção.
gosto disso.

quer comentar? não se acanhe.

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