bem cedinho

teve um tempo na vida que eu tinha muita disposição pela manhã. era meu melhor horário. tudo funcionava rapidinho.
mesmo que as horas de sono tivessem sido magras ou que os sonhos acontecessem inoportunos, nenhum minuto a mais me era necessário.

primeira providência sempre foi bater a mão sonâmbula no rádio. abria os olhos e a vida estava valendo. achava que tinha relação com meu horário de nascimento. seis e pouco da manhã, tudo que era passado ficava guardado em caixas e eu estreava o inviolado dia com determinação.
vocação para aurora.

de repente, sem explicação ou aviso prévio, uma chave virou dentro de mim e tudo que era vontade passou a vagareza.
lentidão de gestos, mudez, olhos estúpidos. sem conversa, por favor, sem conversa. gosto de rolar na cama, quieta, de um lado para o outro.
antes de qualquer coisa, é preciso deixar que o primeiro café cumpra sua missão. depois que o corpo compreenda que é necessário pose vertical. e só então sou capaz da urbanidade de diálogo, mas tem que ser sobre amenidades. passarinhos e flores, talvez.

nisso tudo há um problema. acordo com fome. apetite nas alturas. sempre.
na mesma escala é minha preguiça. sou capaz de pouco mais que uma xícara e uma facada numa fruta qualquer.
o dilema: não consigo, mas quero. sonho com as mesas de café da manhã dos hotéis da Bahia. deliro cotidianamente quando lembro da vastidão de opções dos bons tempos do Glória, no Rio.
desejo mesa posta, todos os talheres, taças, pães e sucos.

acho que o que eu queria mesmo era acordar todas as manhãs na pousada da Mirian, na Graciosa, que além de todos os paparicos e delícias possíveis, tem árvores e flores que às vezes falam, e às vezes só flertam com os passarinhos…

quer comentar? não se acanhe.

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