quase muda

nem queria dizer nada hoje. mas o texto tem dessas coisas, é preciso preocupação com a função. e isso não é bom.
quiçá fosse permitido um texto só pela beleza, só para guardar as palavras de minha preferência. coisa de venustidade sem estar de mãos dadas com o sentido. uma intimidade de pronúncias e dos desenhos que elas fazem no papel ou na tela ou na pele.
fosse poeta, talvez hoje, e só hoje, me entregasse aos traços concretos. mas sou inclinada para o lado da prosa. caótica.
de qualquer forma, esse texto já é a denúncia do fracasso, porque fica a dar voltas e explicar. coisa que realmente não queria hoje.
acho que estou a testar no contraste minha vontade. faço de um jeito para alimentar o que quero, que é exatamente o contrário. talvez a intenção. talvez a negação. talvez a vontade. talvez só confusão. talvez nada.
não queria algo que se reduzisse a tema ou ideia. apenas que existisse em si mesmo e pronto. assim como é a palavra tranchã ou excelso ou coração. apesar de serem todas, ao meu ler, palavras-ônibus, elas se começam e se terminam sozinhas, dentro da imensidão que carregam em suas extrapolações.
fosse eu poeta, e se poeta fosse concreta, e se concreta, competente, inverteria minha própria lógica e pulsaria nos sentidos. torta, quase muda, falaria sem parar.

– lá no topo da página: Infinito, Rodrigo Ferreira.

– aqui no rodapé: Pulsar, poema de Augusto de Campos musicado por Caetano Veloso. animação de Paulo Barreto.

quer comentar? não se acanhe.

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