se eu conversasse com a morte

se a morte me aparecesse, olhos nos olhos, acho que tentaria conversar, explicar que há muito a fazer ainda. contaria sobre o horário e sobre os dias.
pediria que me fosse devolvido o tempo que gastei em filas de banco, em contas do orçamento, em espera de taxi ou mesa de restaurante. pediria de volta a areia que escorreu para baixo sem serventia alguma.
também lhe explicaria que tive dias de choro intenso, de sofrimento profundo, de olheiras e acrimônia, os vivi com toda veemência que me pediram, aprendi algumas coisas mas mesmo assim eles tendem a ocupar a coluna da direita, aquela que agrupa tempo perdido.
pontificaria ainda, que tive momentos em que a vivenciei em partidas, rupturas, despedidas e definições irreversíveis. dei contribuições à morte nos meus dias de vida. isso, também, me tem que ser devolvido.
a desconexão com a realidade das noites de sono também foi uma troca de passos, ensaio de coreografia de dança fúnebre, pequenas mortes que me impediram de tratar da existência.
na conta há espaço para todas as vezes em que não pude decidir meu próprio destino, em que fui obrigada, questão de sobrevivência, a determinadas situações. coisa necessária para adiar o encontro definitivo, mas que não pode ser ocupada na porção do lado colorido.
morri em vida também quando fiquei doente e não pude me dar ao desfrute de festas, beijos, passeios, brindes ou praia. exigiria esse tempo de volta. e também aquele em que perdi trancada trabalhando, no ápice, 18 horas por dia. ou quando minha cabeça fervia em sonhos e alguma coisa me fez ficar sentada na poltrona, estática e imóvel.
se a morte me aparecesse lhe diria que ela não pode ser maior do que as vontades, os ideais, os desejos; que me foi ensinado sonhar e que isso só faz sentido quando há realização, e preciso de tempo para realizar.
diria à morte que todas as vezes em que caí, caí em pé, feito gato. o que significa que tenho que ter, pelo menos, sete chances, sete vidas. e cada uma delas corresponde a 116 anos a cada 25 do calendário romano. tenho muitos direitos pela frente.
seria preciso que a morte entendesse do vexame de sair de cena, de ter obra interrompida, de trocar tudo por nada. nada.
se a morte me aparecesse, tiraria seu capuz, jogaria longe sua foice e a cobria de cores azuis, vestido florido, sandálias confortáveis. mostraria versos imortais, músicas eternas, renovar de flores, desabrochar de pensamentos, recomeço de estação. trataria de lhe contar sobre todas as belezas e sobre as possibilidades de beleza. faria convite à vida e talvez ela pudesse entender sobre viver cada segundo como nunca mais e como cada segundo deveria ser multiplicado até o verdadeiro e definitivo cansaço.

quer comentar? não se acanhe.

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