eu gostava de saber que havia um lado da lua que ninguém conhecia.
na minha cabeça era um mistério composto por uma beleza previsível.
o outro lado da lua era uma coisa que já se sabia mesmo sem nunca ter sabido e por isso mesmo não era essa coisa e era essa coisa, repetindo eternamente um paradoxo branco, acinzentado, esburacado.
quando pensava na lua e na sua face oculta não tinha como acreditar que lá houvesse qualquer coisa que não fosse mais do mesmo.
aquela bola monótona só poderia conter o que já continha. uma espécie de nada fascinante porque não era visto.
mas, às vezes, tantos nadas abriam espaço para eu imaginar São Jorge, lunáticos, cavaleiros do zodíaco, pequenas casas em formato de iglus, os deuses do Olimpo, o Olimpo. até plâncton eu já imaginei cobrindo as areias.
eu era uma selenógrafa maluca que brincava sozinha num jogo de adivinhação infinito para depois recuperar a razão e pensar no vazio, um vazio silencioso e um pouco doído.
e agora?
Artemis, irmã de Apólo, que como se já não estivesse bastante ocupada com tantos trabalhos e revelações, acabou por enfiar em não sei quantos pixels a vizinhança vazia e coberta de obviedade, lançando arco e flecha no enigma.
é um tipo de metáfora para as coisas da minha vida. as que eu sei, as que não sei e as que imagino transbordantes de fantasias para depois retornar ao ponto zero e recomeçar.
a imagem do post é da Nasa, o lado visível à direita, com manchas escuras. tudo à esquerda corresponde à queda das minhas fantasias.
