significado dos sonhos

O sono é como uma outra casa que poderíamos ter, e onde, deixando a nossa, iríamos dormir.
Marcel Proust

cheguei em casa segunda-feira pela manhã. as deploráveis condições não foram mais nem menos do que em outra situação de viagem longa. fechar malas, carregar malas, espera de aeroporto, medo de morrer no meio do oceano, posição imutável dentro de avião, filas, recuperação de bagagem, banheiros difíceis, fuso de cinco horas e tudo que corre no periférico e forma a massa única do deslocamento que tanto castiga.

depois da jornada cheguei em casa num ritmo alucinante. desfiz as malas, lavei roupas, guardei coisas, me entreguei à faxina, montei um armário, reunião familiar e descansei.

no dia seguinte, apesar de um embaralhamento em saber onde estava quando acordei, pulei cedo da cama e dei sequência à vida. reconheci as primeiras fisgadas do inevitável nervo ciático, desprezei e continuei a maratona do fim do mundo numa balada de causar inveja. arrumei coisas, arrastei móveis, fiz almoço, fui ao mercado. lata d’água na cabeça, lá vai Maria

à noite, todo o peso acumulado desmoronou no corpo. j’étais très fatigué.
beijei o travesseiro e agradeci pela cama perfumada, o silêncio, a meia-luz, a água fresca na cabeceira.
dormi.
sonhei.

e de tudo que já se passou comigo nos momentos REM a experiência de ontem foi a mais significativa. sei que é chato ouvir alguém no seu blá-blá-blá de contar sonhos e por isso você pode parar a leitura agora porque vou contar, sim.

era meu último dia. o fim, a morte. nada de fúnebre. eu estava numa sala lilás, agradável e muito bem decorada com armários e gavetas, puxadores de cristal. ninguém me disse, mas eu sabia que em cada um dos compartimentos estava uma parte da minha vida, um acontecimento. uma culpa ou alegria, um ressentimento ou comemoração, um pesar ou contentamento. tudo de significativo guardado ali, para ser revivido e explicado. o purgatório era uma sala elegante, generosa, limpinha e entulhada com os meus dias.
cheia de expectativas puxei uma gavetinha. ela era estreita e longa, deveria ter um palmo de largura por uns dois metros de comprimento. não quis saber, fechei rápido e parti para outra. e esse comportamento se repetiu até que cheguei a uma porta e a escancarei sem chance de retorno. se revelou para mim uma situação que ainda não vivi (e que não quero contar), uma agradável memória que ainda não tenho.

não aconteceu mais nada porque o telefone tocou e acordei.

fiquei misteriosamente animada. não acredito em outras vidas, em juízo-final, em condenação ou absolvição depois do fim. não acredito no depois do fim; quando acaba, termina e pronto. ainda assim fui contagiada por um ânimo novo. foi um sonho bonito, calmo e que me deixou com uma pontinha de confiança no porvir.

se houver algum intérprete de sonho no auditório e o que dormi signifique qualquer coisa diferente do que sinto agora, por favor, não me acorde.

quer comentar? não se acanhe.

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