resistência

querido sono,

este bilhete é pra você.

confesso: meu corpo é seu. sinto-o a caminhar em volta de mim, me contornar os ombros, acariciar meus braços, beijar meus olhos. sei que está por aqui. escuto sua voz de sereia.

percebo, um a um, todos os seus truques: você me faz olhar para cama e reconhecer, à distância, a textura felpuda e macia do cobertorzinho azul; me aponta o chazinho quente e relaxante a esfumaçar cheirinho calmo na caneca desenhada; os quatro travesseiros de ganso e o aquecedor que mantém tudo nos coerentes 22 centígrados.

reconheço seus poderes de sedução. eu sou sua. não precisa me falar da pasta músicas para dormir, a seleção linda e suave cheia de chellos e violinos que me adormecem dentro do céu. também não cite a coleção de sonhos recorrentes que gosto tanto e que as vezes torço para visitar: os campos de Provence, o mar azul sem endereço, o encontro com Pizzarelli. nenhuma necessidade de falar da cama quentinha e da madeira fria da moldura, onde encosto os pés de vez em quando para recolhê-los rápido para dentro da coberta.

não fale, por favor, de chuvinha mansa que bate na janela e menos ainda do escurinho confortável aos olhos.

não seja devasso ao meu ouvido nem tão pesado em minhas pálpebras. por favor, pare. há um limite para a resistência e estou bem na fronteira, qualquer movimento a mais me jogo no seu abismo desconhecido e cheio de encantos.

sou sua. venha à noite, prometo não relutar.

quer comentar? não se acanhe.

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