translação

a terra girou um torno do sol quatro vezes desde que comecei o blog.
enquanto o planeta voa pelo espaço numa velocidade de 108 mil quilômetros por hora, a revelar novas estações e sugerir nossas efemérides de ano novo, me seguro aqui no quartinho e navego junto. as vezes, quando estou a escrever, gosto de pensar no espaço sideral e na partícula mínima, insignificante, que sou no processo todo. gosto também de pensar que mesmo assim estou no processo e viajo nesse caminho elíptico.

há um ano respondo aqui nesse endereço. antes eu caminhava pelo Blogspot, fiz as malas, organizei a mobília, preparei transporte e me mudei.

desde que cheguei na cidade WordPress pouca coisa mudou nos hábitos gerais de aproveitamento de espaço. continuo a postar o que me chama atenção, me desperta curiosidade, me comove. continuo com o que é publicável ou com o que me dá vontade de publicar.

o que começou como um treino de escrita, espécie de obrigação para não atrofiar, se transformou numa rotina, numa companhia, numa extensão da vida, num vício de comunicação, no infindável exercício de soprar dentes de leão e aguardar que o vento traga as pétalas de volta para que eu continue nesse ciclo. terra em volta do sol…

de tanto insistir, acumulei mais de 500 textos. de tanto escrever, o blog virou livro. de tanto repetir as pessoas compraram.

dia desses descobri, cheia de surpresa, o tamanho da minha exposição. ao ouvir os textos por outras vozes fiquei espantada comigo mesma. sempre soube que cada batucada no teclado tratava da verdade, poderia até ser uma verdade inventada, mas sempre a verdade mais profunda que está em mim. entretanto nunca imaginei que eu estivesse tão à mostra.

achava que morava numa vitrine, a escrever sobre sentimentos e situações. me enganei. percebi que a coisa é mais séria: eu sou a vitrine, sou os vidros de uma cristaleira, a redoma.
as vezes me jogam pedras, desmonto.
as vezes me jogam flores, revivo.

fazer da escrita uma imensa terapia é um jeito de compreender a vida. me jogar no texto é fundamental, e eu já não sei mais viver de outro jeito. se hoje ganhasse prêmio de loteria, não sei quantas modificações aconteceriam por aqui, mas tenho uma certeza, certeza sólida, feito as de Úrsula Iguarán, continuaria aqui no quartinho a escrever. a teclar para quem interessar possa, mesmo que não interessasse para ninguém. entrei num caminho sem volta.

escrever, muitas vezes, é mais fácil que viver. e eu não reconheço mais a vida sem escrita.

de compasso em compasso comemoro quatro voltas em torno do sol. evoé!

 

Ninguém mais do que eu amava as palavras. Ao mesmo tempo, porém, eu tinha medo da escrita, tinha medo de ser outra e, depois, não caber mais em mim, Mia Couto em A confissão da leoa.

 

quer comentar? não se acanhe.

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