sofrimento

quando declarei independência dos meus pais, ainda era muito menina. mas queria saber das minhas próprias decisões, trilhar caminho, tratar da vida.

fiz isso em todos os sentidos.
o mais gritante para todos foi o financeiro. guria que vivia com as benesses da mesada no corredor calmo e estruturado do Batel, fui para Vila Ouro Verde, uma favela lá no Uberaba com todos os problemas que esses lugares têm.

as roupas que havia trazido dos Estados Unidos alguns meses antes eram parecidas com as de alguns vizinhos, que as conseguiam na base do revólver, da faca, do roubo de outros varais.

meus hábitos, postura, conversas, interesses e livros me faziam diferente.
logo percebi que ser diferente poderia ser muito perigoso e preferi tratar dos dias em casa, com saídas mínimas.
vendi joias, livros, roupas e tudo que havia trazido da minha antiga vida. não, não era desapego, era necessidade. coisa de sobrevivência.
minha pindaíba financeira era tanta, que dinheiro para o ônibus era luxo. muitas vezes alcancei o centro da cidade de bicicleta. pura necessidade.

a falta de grana não me fazia sofrer. eu não ligava, estava a viver os meus dias da forma que eu havia escolhido. ninguém tinha direitos sobre minhas escolhas e isso para mim valia, vale, mais que Mastercard.
uma única coisa me atormentava naquela pobreza toda: não poder ir à praia. eu era tão nova e por isso tão boba, que imaginava que nunca mais veria o mar. achava que estava condenada a uma vida sem sal.

obviamente os dias de miséria ficaram pra trás. e muitas vezes, em muitos lugares, mergulhei, pisei na areia, senti o mar.

ironicamente, voltei a morar no Batel. por coincidência mesma rua, outro nome. hoje a vida segue mais tranquila, não preciso plantar salsinhas no quintal para fazer com que a sopa de macarrão tenha mais sabor. nem acho que hambúrguer seja prato para comemoração de dia de festa.

mas há uma tristeza, um fio de puerilidade que me amarra. trancada em casa durante a temporada de sol, por conta de uma peste na saúde, chorei quieta na tristeza da conclusão de que nunca mais veria o mar…
era o mesmo sentimento, que podia ser combatido com um fio de consciência, mas que o sorvedouro do momento embaralhou.
se pensasse direitinho, longe das lágrimas, chegaria à conclusão coerente. mas em janeiro eu não conheci razão, fiquei entregue à falta de saúde, corpo e mente.
não era coisa de pensar, era coisa do penar, do sentir, da dificuldade do sofrer.
meus pés queriam caminhar na areia, mas eu não via como.
nunca mais.

com o tempo e a patrulha médica estou muito melhor. caminho por aí com ares saudáveis, tenho um estojinho de remédios e consigo tratar da vida normalmente, não fosse o compromisso de consultório dia sim e o outro também.

a notícia mais recente: não, não vá à praia. desabo. a saúde vale, vale muito. mas vale a vida? vale a privação de sentir água, sol, sal? vale não ser peixe ou estrela, siri ou camarão? a saúde vale ficar doente, louca, triste?
se o mundo é hoje, se minha única certeza acontece na fé deste dia, será que é certo me privar das felicidades?

quer comentar? não se acanhe.

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