a fé, o sincretismo e o respeito – missa na Bahia

eu que sou ateia, a toa, a toda, pela primeira vez não ouvi a voz que narra o que meus olhos sentem. por algum tempo minha cabeça ficou muda, uma linha horizontal sem movimentos ou inquietações. novidade.
fui à missa.

sempre que posso dou uma espiadinha nos rituais. gosto. sinto inveja da fé alheia.
dos momentos católicos, já vi aquelas maravilhas nas grandes catedrais europeias, os órgãos que têm o tamanho do meu apartamento a ecoar nas paredes forradas de santos; corais mais afinados que a Suzie Franco; latim do início ao fim. já vi em comoventes capelas sermões interessantíssimos para serem seguidos à risca fora das paredes de Jesus; casamentos; batizados; missa simples e dentro do beabá; missa ousada com padre revolucionário…

ateia, interessada em sair dessa condição, faço várias tentativas, todas que posso. terreiro, protestante, palavras budistas, universo em desencanto. não tenho preconceito de religião. tudo já fiz, fui até o Canjerê… nada. sempre há uma racionalidade que estraga tudo, pareço criança de oito anos quando vê um Papai Noel, ela já sabe que ele não existe, sua atenção é só para descobrir quem é o farsante.

pois bem, continuo igual ao que se refere à crença. mas ontem, na missa da Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, uma novidade: fiquei muda diante do altar. não, ao contrário, desculpe. cantei pra valer as músicas da missa e larguei em voz alta as rezas e completei as frases que o padre deixava propositalmente em branco. nada ficou se desenhando na minha cabeça, nenhum texto se compondo, nada de explicações lógicas para todo o teatro. simplesmente participei, com naturalidade, diversão e contentamento. não tive oportunidade de ter fé, mas também não precisei passar pelo desprazer daquela eterna e infantil contestação de tudo. só fui e vivi. pronto.

um pouquinho da missa: ela leva pra dentro da igreja aquele jeitão do candomblé. os cânticos chegam acompanhados de percussão, palmas e danças. há oferendas, pedidos de bênçãos. há o afoxé presente e até o sermão do padre recorre a exemplos estranhíssimos ao catolicismo para mandar a mensagem. é um espetáculo bonito e comovente, mas é também emocionante e cheio daquelas pessoas que nos fazem ir às lágrimas quando se revelam tão humildes diante do altar.

eu adorei esse jeito de várias culturas darem as mãos por um momento e nele, ali dentro pelo menos, todos serem iguais. a senhorinha que estava ao meu lado, o turista francês que estava do outro a filmar tudo, as freiras que formavam fila cinza num dos bancos, a mãe de santo que ouvia tudo coberta de guias e de olhos fechados. todos iguaizinhos, porque todos queremos coisas muito parecidas, porque todos somos humanos, porque somos todos, e cada um, um elo dessa corrente universal.

gosto dos lugares em que o respeito pelo diferente é o que torna todo mundo igual.
como é bom estar na Bahia!

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