elegância no inverno

não. as pessoas não são mais elegantes no inverno.

eu não sou.

o normal do visú quando estou em casa: pijama, com meia por cima da calça, pantufa, roupão e cachecol. as vezes touca. sempre puxando o aquecedor pela casa, como se fosse um cãozinho do qual não posso me separar de jeito nenhum.
se estou a ler no sofá, imensa taça de vinho, que pode pegar mal às três da tarde e começar a perturbar a literatura às quatro. se estou a trabalhar no quartinho, um balde de chá, que esfria em velocidade espantosa.
minha cama poderia ser substituída por uma cestinha de recém-nascido, fico tão encolhida que não preciso de mais espaço, o que me leva aos anti-inflamatórios, que misturados ao vinho da tarde não adiantam muita coisa, fico toda dura e dolorida.
e o banho? primeiro a preguiça sem fim, as mil ponderações sobre a melhor hora para o sacrifício. quando a decisão é tomada, encaminho o aquecedor para o banheiro. uma vez que consiga a temperatura ideal da água, que o banheiro esteja quentinho, com portas e janelas quase vedadas para que nenhum sopro frio chegue sem aviso, entro no chuveiro. fico imóvel a deixar que a água caia abundante, pensando no pessoal do Greenpeace e tomada pela culpa não consigo decidir o momento para terminar o ritual, quase sempre é quando a água quente chega ao fim.

se preciso ignorar a meteorologia e ganhar as ruas, não se engane, companheiro, o que você vê por fora é muito diferente do que está por baixo: meia-calça, calça, meia, blusa 1, blusa 2, casaco, cachecol.
mal consigo dobrar os braços. e sei que se eu cair num dos buracos das nossas calçadas ou se um dos motoristas que barbarizam as ruas me atropelar, não sentirei nada, porque a camada que me cobre é tão fofa que impacto pouco é bobagem.
isso não é elegância, isso é indecência.

garbo e elegância são coisas do verão mesmo, onde mulheres podem caminhar livres em vestidos leves, floridos, esvoaçantes e homens aproveitam as airosidades do linho cru. é quando um chapéu panamá ou um par de havainas protegem mais que toda essa parafernália do inverno. é o tempo das transparências discretas, da seda, do refresco, do sol, das noites agradáveis, do vinho branco, do chá gelado batido…

no verão, vale quando pesa. no inverno, algodão e lã em quantidade industrial.

quer comentar? não se acanhe.

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