em Piên

uma vez, mais de 20 anos, fui a Piên. não conheci a cidade porque saí da minha casa e desembarquei direto numa madeireira, um lance que tinha relação com eucaliptos.

daquele episódio lembro pouca coisa: vento absurdo que curvava árvores, chacoalhava janelas, e assobiava pequenos redemoinhos no chão; meu interlocutor era um homem com personalidade diferente, jogava a cadeira de diretor para trás em movimentos violentos, eu não conseguia prestar atenção em suas palavras, porque ficava desesperada com o tombo que ele estava prestes a tomar na acrobacia.
e só, mais nada me chega da lembrança.

na última semana que foi parar no passado, estive em Piên. caminhei pelas ruas, me balancei na praça, encontrei um brechó, conheci pessoas.
experiência daquelas bem boas, que provavelmente se instalarão em mim e as visitarei no futuro de fotografias e anotações.

estava em pé, diante de alunos e professores, e pensamentos fora de hora começaram a me cutucar. intrusos, teimavam em me chamar enquanto precisava de toda a concentração para seguir palestra.
pensamentos intrometidos parecem a barra direita do Youtube: você está a assistir uma coisa e fica reparando em outras, um olho no peixe outro no gato.

mas, para minha grande sorte, as pessoas que estavam comigo eram interessantes e me acolheram de forma generosa, com perguntas, questões, silêncios, conversas, atenções e tudo que uma pessoa que está diante de uma plateia deseja.
o tempo passou rápido feito um tiro, gostoso como brisa de verão. e logo eu estava no carro, a caminho de casa, lamentando que o relógio seja assim tão impiedoso quando o trabalho se mistura facilmente com prazer.

e foi olhando as cenas da estrada que o pensamento teimoso voltou: minha vontade de mudar de cidade.
toda vez que visito um lugar em que as pessoas são generosas, que me olham nos olhos, que sorriem e conversam e exibem a vida como ela é, sem salamaleques, tenho vontade de largar tudo e encontrar morada onde é possível esse tipo de convivência, agora em extinção.

em Piên, tem bibliotecário que faz festa com música de Tom Zé, aluna feliz com biografia diferente, gente que se conhece desde a infância, perguntas e mais perguntas. Piên tem fotografia antes, durante e depois; tem conversa e delicadezas.
em mim, agradecimento.

(a foto surrupiei de uma publicação da prefeitura, crédito para Felipe Machado)

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