espasmódica

dia desses tive uma cãibra horrorosa. batata da perna, bem em cima de um machucado da pele, bem onde os deuses não podem ouvir. fiz um escândalo. gritei e chorei, chamei por todos os santos, que dormiam, ou riam, ou olhavam para o outro lado do mundo, não sei bem. minutos depois apareceu meu vizinho, mas a situação já estava controlada e eu fiquei com aquela cara de pessoa inconveniente que não suporta uma dorzinha e abala as estruturas do prédio por qualquer coisa.

foi terrível. dor impressionante. a pior que tive na vida – e que desejo a alguns inimigos escolhidos a dedo.

nos três dias que sucederam o acontecimento sonhei que tive cãibra ou que iria ter, acordei assustada, com medo, a achar que era um pressentimento e passei a velar minha perna, adormecia segurando-a. a mão, solidária, abraçava a batata da perna a lhe sussurrar no ouvido que ficasse tranquila, que ela estava ali para uma massagem rápida, que nada lhe aconteceria. e a panturrilha, deitada eternamente em braço forte, descansava.

as noites passaram tranquilas e perna e mão puderam se separar para as horas de descanso, cada uma em seu lugar. relaxei.

hoje pela manhã, enquanto seguia os rituais da preguiça e espichava o corpo a aproveitar cada centímetro da cama, o pé, decerto por ciúme, inveja ou despeito, tratou de chamar atenção, se entortar todo numa contração que deixaria qualquer profissional da área impressionado. fiquei quieta a esperar que fizesse seu percurso em paz e não fosse interrompido na demonstração de que também sabe ter cãibra se quiser. um minutinho e pronto, passou.

mas a mão foi até lá, pegou o pé, lhe acariciou, com as pontas dos dedos lhe disse que tudo estava bem, que não se preocupasse e nem temesse o futuro, que sempre estaria por perto. pé ficou agradecido.
mão passeou pela perna e prometeu que lhe cuidaria também. perna gostou da lembrança e sorriu aliviada.

estou aqui com meus pensamentos, a planejar como serão as próximas noites, uma grande orgia entre perna, pé e mão abraçadinhos e eu a explorar carreira de contorcionista…

quer comentar? não se acanhe.

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