flutuando no tempo e no espaço

é engraçado, faz um bom tempo que eu não tenho ideia de que dia do mês estou.
não sei, simplesmente não sei.

os dias vão passando e se perdendo na contagem. por mais que eu soubesse, por exemplo, que, sei lá, ontem foi dia sete, por ser data importante, hoje não reconheço o dia oito… não faço a mínima ideia de que dia é…
recorro a todo tipo de apoio para dar conta em qual lugar do calendário estou.

outra coisa, também não sei direito que horas são. olho para o relógio, verifico os ponteiros para imediatamente esquecer no segundo seguinte.
uso o despertador para marcar compromissos. uma hora antes, dispara música e aviso na tela do telefone e me conta para eu esquecer logo em seguida que tenho que fazer tal coisa. e só me lembrar de novo no décimo minuto seguinte, quando a musiquinha toca de novo.

pouco sobra da minha memória sem um bloquinho onde anoto tudo que tenho que fazer e vou ticando conforme minhas conquistas diárias.
na mesma medida, enquanto vou lembrando do que tenho que fazer, vou anotando nessa lista mágica e cheia de rabisco que aumenta e diminui.
concertina de deveres.

também utilizo os recursos de escrever nos azulejos. volta e meia tem algum recado para mim mesma – geralmente alguma coisa que não li no tempo certo e quando percebo na parede da cozinha, já era.

carrego sempre comigo uma agendinha, onde todo tipo de anotações são aceitas, inclusive enigmáticas letras que resumem pensamentos, que depois não faço a mínima ideia do que significam.

início de poesia, começo de crônica, ideia de romance, desenhos incompletos… tudo se espalha ao meu redor como pedaços da minha memória, que ultimamente anda a funcionar toda recortada, como se fosse memória de sonho: sei que tenho que falar com Fulano, mas sobre o que mesmo? / que que eu vim fazer aqui na cozinha? / por que abri a porta do armário?

dizem por aí que tem relação com a vida louca que a gente tem levado e também com essa entrada, com as quatro patas no peito, da tecnologia em nossas vidas – do número do celular da mãe à memória de fatos históricos, entregamos muita coisa aos aparelhinhos…

eu não sei o que provoca esse lance em mim, já me preocupei bem mais com isso.
agora, entretanto, me gusta estar perdida en el tiempo y en el espacio…

– imagem: A Porta, o Tempo e o Espaço – Marcel Caram

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