meus cíclicos problemas domésticos

gosto de brechós. passo horas a me divertir em mercado de pulgas. adoro sebos.
ácaro, poeira, partículas? que nada, tudo isso é a pátina da história.

também me acalma a consciência saber que eu contribuo para que o mundo não se encha ainda mais de tranqueiras. pego as que já estão rolando por aí e me satisfaço com elas. nessas horas, sou um tipo sustentável.

outra coisa que me agrada, é imaginar décadas e décadas de história de cada objeto. invento roteiros preciosos, acredito neles, exalto suas performances, me entristeço com os momentos difíceis e fico esfuziante com as glórias – a ficção é a melhor amiga da realidade.

tempos atrás chorava as pitangas porque comprei belas taças de cristal da década de 50 e deixei para trás os pares copos. separei a família, amputei amores, segreguei o convívio. não pude reparar o erro de imediato, porque de repente, ao sabor do meu interesse, o valor de cada copo duplicou de preço. chorei inconformada.

pois bem, perseverei, insisti, resisti a outras taças e copos que queriam preencher o vazio da mesa e conquistei a meia dúzia solitária que esperava para rever os companheiros de outros banquetes.

saquei a alegria das taças, o Bordeaux tinha gosto de festa; os copos conservavam água fresquinha, temperatura constante de moringa de barro. e a vida à mesa era farta e boa, tranquila e elegante, risonha e cristalina. o cardápio nem importava mais.

ilusão passageira, contagem regressiva…

o presente que chega da França atende pelo nome de Bourgogne Aligote Blanc. e em vez de comemorar o que acontece? lembro, lembro com lágrimas nos olhos, que há no mesmo brechó, filhas da mesma família, órfãs por culpa da mesma pessoa, meia dúzia de taças para vinho branco.
me afogo em meus cíclicos problemas domésticos.

quer comentar? não se acanhe.

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