minha voz continua a mesma

saí hoje pela manhã para fazer umas coisinhas no centro. depois de perambular pela obrigação, o dever do entretenimento.

sem endereço definido caminhei pela XV.

eu me distraía tranquila quando passei por uma loja de cosméticos e lembrei que precisava de creme para o cabelo. problemas começaram a desabar numa velocidade apavorante.

o primeiro obstáculo foi driblar o cara do microfone. veja bem, eu queria entrar na loja e bem na frente, no meio do caminho feito uma quarta-feira, estava um rapaz, microfone em punho, voz de quem sonha em fazer parte da ruína das FMs comerciais, a falar coisas estranhas. fiquei com medo de pedir licença e minha solicitação ser projetada pelo calçadão. também não tive coragem de, muda, dar-lhe um tapinha nas costas e gesticular passagem, vai que o cara resolve narrar qualquer coisa sobre a cena. tímida que sou, tratei de me plantar como uma palmeira periférica até que alguém puxou-lhe pelo braço e eu pude fazer manobra, contorná-lo e me jogar pra dentro da loja.

entrei. problema resolvido? só o primeiro. lá dentro, enfileiradas, umas sete vendedoras, predadoras, ávidas por comissão. para não ter que encará-las tratei de falar com a que estava mais perto. erro. acho que elas atendem num sistema de rodízio e a Carla foi chamada. mau humor. não meu.

disse o que queria especificamente. usei o recente francês e pedi marca, modelo, ano de fabricação. Carla andou com a mão aberta pelas prateleiras, a acariciar de jeito desprezível embalagens até parar em uma, rodopiar o rótulo e me entregar. espanto! não era o que pedi. obviamente perguntei, já a imaginar a falta da marca e a substituição do produto. qual o quê?! Carla, olhar de governanta alemã, me tascou sem constrangimentos: Este é mais apropriado para você, veja, é para cabelos ressecados, sem vida e opacos! um chute na frágil autoestima.

peguei o pote na mão, empinei o nariz e segui, humilhada, para o caixa.

fim? claro que não. na saída, o rapaz do microfone me chama para eu dar meu testemunho sobre a compra. um relampejo com duas vontades diferentes passou por mim:
1. agarrar o microfone e iniciar um flash mob no meio da XV cantando “Ain’t No Mountain High Enough”.
2. roubar o microfone, estrelar um dia de fúria e destruir caixas de som que se estendem por todo o calçadão.

o que eu fiz? um sinal que ficou parecendo antipático, mas era só timidez, apressei o paço e voltei pra casa abatida, desencantada da vida.
na segurança do lar, liguei a radiola. lavei o cabelo.

quer comentar? não se acanhe.

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