o porvir

sempre tive problemas com o futuro. acho que tem relação com o número de compromissos que tenho, que sempre tive, no presente.

comprometer o porvir é uma espécie de tortura para minha frágil existência. até coisas banais me deixam nervosa: agendar o cinema de sábado, o almoço na semana que vem, a festa de aniversário.
na empolgação do momento, combino tudo e três minutos depois estou nervosa, num misto entre arrependimento, preguiça e carga de responsabilidade.
fico tensa, não sei explicar.

até as férias, que me dão tanto prazer, acabam me torturando se as vejo no horizonte do compromisso: passagem comprada, data marcada e pronto, o gatilho da tortura foi disparado.

é um atrapalho total ser assim. destruí muitos relacionamentos, perdi a realização de sonhos e não me precavi de vários males pela dificuldade de planejar e me comprometer com prazer para além do dia de amanhã.

já queimei mil madrugadas pensando nisso. mas chega um tempo na vida (ainda que eu reconheça que o defeito de fábrica fez com que eu viesse me despedaçando pelo caminho), que não dá para continuar lutando contra a natureza.
enxergo a situação como se esta característica fosse aquele tipo de capim de encosta, crescido e curvado pelo vento e que eu estivesse tentando dar-lhe outra direção. não dá, é trabalho tolo e inútil. deixar a franja da encosta no molde do vento é melhor.
é tarefa inglória ir contra a natureza, então, me jogo nesse penhasco metafórico.

daqui para frente, me conformarei com o vento e o capim.
as tentativas de futuro estão, por decreto, desfeitas. vivo sim o dia de hoje e, amanhã, salve-me quem puder.

quer comentar? não se acanhe.

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