obra na garagem – 2

acordei com o fim do mundo, fiquei tão assustada com o furdunço que achei que a única providência era me enfiar no roupão e sair. ainda tive tempo de pensar que não seria nada bom continuar com um pé de meia amarelo e outro azul e fui procurar par gêmeo. no meio do caminho, sonada, entendi: depois de mais de dez dias parada, a obra da garagem revive. os homens chegaram cedo e se anunciaram na barulheira infernal.

dez dias sem receber satisfações e de repente sou acordada por o que, calculado em decibéis, se iguala a estar no meio da bateria da Mangueira ou, se pensado em desagradabilidade, ouvir conversa de Zezé di Camargo e Luciano.

muito bem, tratei de me preparar para o dia, ainda que começasse em horário indecente. tomei banho e só para competir com o que vinha lá de fora, liguei o secador, fiz vitamina de banana no liquidificador e passei aspirador de pó no quartinho.

horas combatendo barulho com barulho.

quando parei, exausta e emocionalmente esgotada, percebi: os homens cessaram com o batuque lá em baixo. a sinfonia de horrores tinha acabado.

não sei por quanto tempo eu fiquei no transe dos eletrodomésticos, nessa jam session de improvisações alucinadas, mas o resultado se espalha em sono, mau humor e dor de cabeça. e no reconhecimento, claro, da minha burrice – mais fácil e inteligente simplesmente sair de casa.

com o despertar do ogro irracional que mora em mim, tenho medo de descer e pedir informações, por que cargas d’água, não terminam logo de uma vez? será que vai ser isso, uma tortura lenta, gradual, que chega de dez em dez dias para me corroer os nervos? do jeito que estou, periga eu mesma agarrar ferramentas e tratar do serviço à minha maneira: pá de cal, fim da obra, chega de desordem.

 

quer comentar? não se acanhe.

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