ópera sem história

quando o tempo é curto, a preguiça muita e a fome gritante, almoço num restaurantinho aqui na quadra de casa. é honesto, tem nome de ópera e serve à vizinhança.

o pai do dono, um senhor muito simpático, está lá diariamente como um maître des cérémonies, que, sentado na sua mesa de todo dia, cumprimenta esfomeados com sorrisos e acenos. quando vou sozinha as vezes me convida para sentar com ele, depende do nosso humor, que reconhecemos um no outro no primeiro olhar: se entro em passos largos e braços cruzados ou se ele está com o pensamento perdido entre pratos e pessoas, nada feito, cada um segue em sua solidão e pronto.

pela proximidade das mesinhas e os clientes habitués é um bom lugar para se inteirar do que acontece no bairro, nos prédios, nas casas. as vezes estou a ouvir uma história e sei de versões diferentes porque elas chegaram a mim por outra mesa. não consigo deixar de prestar atenção nas conversas periféricas…

sexta-feira almocei em horário diferente do que estou acostumada e por isso conheci personagens que não vejo cotidianamente.

primeiro ato. entro um pouco distraída, me sirvo e sento na mesa ao lado do senhor. começo almoçar e vamos conversando amenidades taxistas: o tempo, o preço da carne, o Atlético… quando uma moça termina sua voltinha ao buffet percebe que não há lugar. o senhor a convida para sentar-se com ele. aceita. agradece. e as conversas continuam, agora em trio. no meio do vaivém do papo ela saca o celular da bolsa, coloca em cima da mesa e passa a conferir as atualizações do Facebook.

segundo ato. o senhor nos pede licença diz que precisa caminhar um pouco, esticar as pernas, dar uma voltinha. quando começou a frase estava a olhar para o telefone dela. como é homem gentil, acho que quis deixa-la a vontade para conversar com bem quisesse. a moça não ergueu a cabeça para concordar, aceitou com o pescoço dobrado pra baixo, mão direita no garfo, mão esquerda na tela.

terceiro ato. dei uma espiada em volta porque senti falta das conversas de sempre. no leste, a moça no Facebook; oeste um rapaz que também tratava do mesmo assunto; mais pra frente, uma terceira que além de se relacionar virtualmente sabe-se lá com quem, tinha uns espasmos de risadas; um pouquinho mais pra frente, um casal, cada um com seu telefone; e até as duas crianças que estavam almoçando com a mãe, teclavam, teclavam, teclavam. vencida, eu também puxei telefone, engatilhei o Wi-Fi e terminei meu almoço na companhia daquela gente boa que escreve no Obvious.

resumo da ópera: para ter folga de tudo isso que me consome sem que eu perceba, preciso voltar a almoçar no horário normal. o médico tem razão: melhor coisa é ter disciplina e fazer as refeições sempre no mesmo horário.

quer comentar? não se acanhe.

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