vontade de verão

o verão passa pela minha janela. me acena, me sufoca, chove e anoitece.
dia após dia revela minhas impossibilidades, onde me asfixio e choro. parece que adoecer na época de praia, de liberdades, de sandálias e de vestidinhos floridos é mais angustiante e doloroso.

a solidão das tardes quentes piora meu estado geral. e não importa muito o número de visitas que eu receba aqui, no leito, no caminho do que eu acho que é o fim. a solidão maior vive na impossibilidade de ir à praia, de mergulhar, de pisar na areia, de aproveitar o sol, de tomar banho de chuva. a solidão está na incapacidade de viver o que tenho vontade.

ter uma doença como companheira de vida é aprender o significado verdadeiro da superação diária. é preciso muita concentração para não se entregar à vontade de repelir qualquer esperança.
veja só, tantos anos depois, ainda tenho a mania de acreditar que o amanhã poderá chegar carregado da grande surpresa de melhora, de cura.

algumas pessoas ingenuamente me dizem que há coisas piores pelo mundo. não estou interessada no que é pior, no que existe de mais sofrido ou difícil do que estou a passar agora. cada um sabe da própria dor. sei da minha e ela me castiga o corpo, me fere a alma e me embaralha a ideia.

às vezes, quando ninguém está olhando, tenho pensamentos secretos que me levam para um lugar muito diferente das minhas crenças e de tudo que eu conheço: me imagino no século X como algoz que jogava mulheres em fogueiras e deixava-as arder em brasas para entender se eram ou não eram bruxas. penso que incendiei corpos e mais corpos, que tostei lindas mulheres, que castiguei com fogo qualquer uma que pensasse e agisse diferente. e agora, mil anos depois, sozinha em casa, diante do verão, recebo o troco.

depois de guerrear e provar várias coisas, Joana D’Arc morreu queimada no dia 30 de maio de 1431. sou uma Joana D’Arc às avessas. não levanto estandarte nem conduzo exércitos, não tenho crenças nem castidade, não sou mártir nem heroína de ninguém. minha luta é pequena, particular, circunstanciada, específica: sonho pelo dia em que poderei deixar o corpo inflamando ao sol e frigindo em salmoura. sonho e sinto o corpo arder, queimar…

ano que vem, quem sabe, meu verão seja de praia.

quer comentar? não se acanhe.

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