Versailles, vexames

estava bem frio. mais de meio-dia e o trubisco do telefone marcava três graus negativos. mas o iPhone não conhece os elementos, não sabe como a situação pode piorar muito longe da cidade. eu sentia um frio russo.

não estava triste. ao contrário, passear pelos jardins de Versailles numa segunda-feira no meio do dia, na solidão das passadas, com sol azul e céu brilhante me deixou bem em paz.

mas uma mãe nunca está sozinha e de repente me deu vontade de mostrar para as crianças tudo que eu via. lá pelas tantas, resolvi me dedicar ao ridículo da selfie. euzinha e a paisagem. preparei ângulo, pensei nos meus óculos e como eles refletiriam mais o que eu via do que eu mesma. tudo estudadinho. e o frio comendo solto. cliquei. a primeira coisa era saber se meus planos de óculos e reflexo vingariam. vingaram.
cinco segundos depois fui conferir o resto. revelação instantânea tem lá suas vantagens.
se você tem estômago leve, pare de ler por aqui.
olho para a tela do telefone e a imagem mais ridícula que o próprio ato da selfie: um ranho escorrido e congelado no meu nariz. isso mesmo, assim, com sotaque paranaense: ranho.

eu não sabia, não senti, porque meu rosto estava amortecido pelo frio. ri sozinha, saquei o lencinho, como quem tira revólver em filme de bang-bang, arrumei a situação e bati nova foto. essa que está estampada aqui e que puxou o comentário do meu amigo Sérgio você poderia escrever uma crônica intitulada “a arte da selfie sem cair no ridículo”. mal sabia ele…

acabou? não.

com lenço em punho, continuei a caminhada. e fui até a fonte e lembrei dos conselhos das amigas jogue uma moedinha e faça um pedido. como sou um tanto atrapalhada, fiquei a pensar no pedido, concentrada nele para não ter erro. encaixei uma palavra atrás da outra sem deixar possíveis interpretações para os deuses. tudo muito luso, literal e direto. joguei a moeda e escutei o estalinho. a fonte estava congelada. minha moeda ficou ali, quieta, me olhando zombeteira, meio que me tirando um sarro e guria ranhenta, para de tentar coisas nesse dia e volta pra casa!

acabou? não.

depois de zanzar de um lado pro outro, achei que era hora de abandonar os jardins e correr para civilização atrás de algum lugar quentinho e aconchegante nas imediações. um jeito gradual de trocar o silêncio pela cidade.
passei por umas lojinhas, entrei numa galeria e cheguei ao balcão com meu francês de meia tigela Je voudrais un verre de vin rouge. a moça me olhou e riu. repeti. e quando estava no meio da frase que me dei conta: eu havia entrado num McDonald’s.

acabou? não. mas por hoje chega.

versailles-selfie

quer comentar? não se acanhe.

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