viagem de ventania

e por acaso nasci grudada a alguma ideia, verdade, vontade ou conceito?

não gosto que me chamem volúvel. acho feio. um tanto vulgar e tem uma carga que não combina exatamente com o que penso sobre as coisas mutantes da vida.

tenho ideia, primária, assim: gente é areia; vida é vento.

tem gente que é areia dura, chão molhado de mar, que deixa que um grãozinho ou outro da superfície engane o olhar e mostre movimento, mas as convicções, as raízes, os conceitos, estão cimentados em verdade imutável. há segurança, confiabilidade, estabilidade, certezas.

tem gente que é areia solta, fina, de dunas muito extensas. movimento constante. é coisa de não oferecer resistência, de trocar de lugar, soltar certezas ao vento. reaprender, reorganizar, reinventar.

não gosto quando começo a achar que não posso me entregar aos deslocamentos. que os outros achem, entendo. mas quando essa coisa parte de mim, tenho problemas. é difícil me manter como uma peça do Egito fincada no lugar, imutável, olhos num horizonte único. sofro assim.

tenho cá pra mim, que o mundo é mais que meus escassos recursos para compreendê-lo. a vida é maior e se o vento sopra forte é porque têm coisas que precisam de uma chacoalhada.

com isso sou volúvel, vulgar, banal, instável? não! a oscilação faz parte de tudo, de todos, a Terra gira porque é preciso de sol e lua, de horas diferentes, de verão e inverno, de expansão e encolhimento, de voo e pouso, de dormir e acordar.

penso nos rios que mudam curso, velocidade, volume, tamanho, começam de um jeito e vão-se pelos caminhos, abertos e fortes para assumirem mudanças. acabam sempre no mar, de um jeito ou de outro, acabam sempre no mar.

penso nas árvores que se solidificam na terra, agarram o solo com força tão poderosa que não há vento ou chuva que as tirem do prumo. se levantam soberanas, repletas de dignidade, cabeça erguida. são testemunhas e cúmplices da história. permitem sombra, ar, paisagem, fruto pra quem precisa. plácidas, apontam pro céu, de um jeito ou de outro, sempre apontam pro céu.

vasto é o mar, espelho do céu…

sou rio e duna. gosto de areia dura e árvore.

 

Uma resposta

  1. Zeca

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