encher a cabeça de sonhos como se ainda fosse possível realizá-los e olhar, longo, longuíssimo tempo, os quadros da parede.tomar um ar de esperança e despedir-se do cachorro. segurar a mala, soltar a mala, achar que está esquecendo alguma coisa muito importante e conferir mil vezes os documentos. despedir-se da filha, segurar seus cabelos, passar as mãos pelo seu rosto, abraçá-la tão forte como se …
fui educada dentro de limites, linhas muito claras sobre o que se pode e o que não se pode fazer. os discursos nunca deixaram dúvidas.por exemplo, num mundo em que todos mentiam, era clara a ordem: não se pode mentir! como se não fosse embaraçoso demais observar mentiras e não poder recorrer a elas, tinha ainda por cima a punição por falar a verdade. nunca …
várias vezes tenho pensamentos dedicados à saudade. pensamentos dedicados à saudade.pensamentos sobre saudade.o que é saudade? lembrança boa é saudade? vontade de estar com uma pessoa é saudade? revisitar com doçura o passado é saudade? a saudade implica em querer hoje o que é de outro tempo? saudade se aplica a situações do presente? dá para sentir saudade de ontem à noite? saudade é aquele …
– qual é a sua pretensão, Adriana? ouvi a pergunta. a pessoa o fez como se a interrogação tivesse uma resposta certeira. não era uma abordagem à conversa aberta, ao diálogo livre. menos ainda era uma possibilidade de ouvir com atenção e interesse os resultados da pergunta que não fizessem parte do script já consolidado por anos de prática de dominação, clichês e falsidades. pretensão.o …
numa manhã amarela, mais amarela do que qualquer outra, saí de casa.mas antes disso, acordei cansada, tão cansada como qualquer outra mulher, tomei banho e vesti uma roupa serena e nova.mas antes disso, me olhei longamente no espelho. vi as rugas e o cabelo. mas antes disso, percebi o olhar, que era o mesmo e já não era. como se o olho direito dissesse sim …
a infiltração no quarto. o prazer do amanhecer. a xícara preferida. o suco de goiaba. o café da manhã no silêncio da varanda. a música na sala. o vinagre no chão. a vela no escritório. a gaiola de canetinhas. o drible na morte na faixa de pedestre. o tropeço em pedra solta. feira. feirinha. o arrependimento de andar na xv no domingo. a bolsa colada …
Mateus 7:6 – “Não deem o que é sagrado aos cães, nem atirem suas pérolas aos porcos; caso contrário, estes as pisarão e, aqueles, voltando-se contra vocês, os despedaçarão”. tenho poucas obrigações. no entanto, sou obrigada a muitas coisas.tento desenhar minha vida de uma forma que haja alguma possibilidade de escolha. isso traz uma série de consequências: mais leveza, mais tempo, menos dinheiro, esquecimento em …
antigamente eu jogava garrafas ao mar. um bilhetinho dentro, uma indicação de tempo e local. era tudo. não foram muitas. também não foram poucas. devo ter poluído o Atlântico com isso umas 15 vezes, nuns 20 anos. sempre com a esperança de que alguém a retirasse do mar e guardasse como eu guardei uma caixinha de latão que encontrei na areia da Ilha do Mel. …
quando comecei a bordar, voltei a escrever.começar, voltar.bordar, escrever. se eu tivesse um pouco mais de ânimo iria procurar informações neurológicas para entender as sinapses em comum nas duas ações. não tenho. o que identifico é o nada. o nada no pano, o nada no papel. e depois disso a invenção do mundo que acontece ponto a ponto, letra a letra. nos dois casos há …
cultivo etiquetas. aprendi, ainda na infância, a manter-me um passo atrás. meu pai sempre foi um tipo caladão. não contava e não perguntava. já na minha casa adulta, era incapaz de chegar sem avisar, de abrir qualquer porta, da geladeira, do armário, do baú de ferramentas, sem pedir permissão. nem ao banheiro ele ia sem fazer a pergunta. no outro extremo, minha mãe. sempre quis …